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Jung e sincronicidade: O conceito e suas armadilhas

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Letícia Capriotti
O CONCEITO DE SINCRONICIDADE

A sincronicidade é um conceito empírico que surge para tentar dar conta daquilo que foge à explicação causal. Jung diz que “a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal e exige um outro princípio de explicação” (CW VIII, par. 818). A física moderna tornou relativa a validade das leis naturais e assim percebemos que a causalidade é um princípio válido apenas estatisticamente e que não dá conta dos fenômenos raros e aleatórios.

Ao longo de sua obra, Jung deu várias definições ao conceito de sincronicidade. Aqui estão algumas delas:

> “... coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal mas com o mesmo conteúdo significativo.” (CW VIII, par.849)

> “... a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa.” (CW VIII, par. 850)

> “Um conteúdo inesperado, que está ligado direta ou indiretamente a um acontecimento objetivo exterior, coincide com um estado psíquico ordinário.” (CW VIII, par. 855)

> “...um só e o mesmo significado (transcendente) pode manifestar-se simultaneamente na psique humana e na ordem de um acontecimento externo e independente.” (CW VIII, par.905)

> “um caso especial de organização acausal geral.” (CW VIII, par.955)

> “coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos.” (CW VIII, par. 959)

> “uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como os estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.” (I Ching, p.17)

> “o princípio da causalidade nos afirma que a conexão entre a causa e o efeito é uma conexão necessária. O princípio da sincronicidade nos afirma que os termos de uma coincidência significativa são ligados pela simultaneidade e pelo significado”. (CW VIII, par. 906)

Jung define também três categorias de sincronicidade:

1. coincidência de um estado psíquico com um evento externo objetivo simultâneo.
2. coincidência de um estado psíquico com um evento externo simultâneo mas distante no espaço.
3. coincidência de um estado psíquico com um evento externo distante no tempo.

Através da definição destas categorias, podemos perceber que nos fenômenos sincronísticos, o tempo e o espaço são relativos, isto é, o fenômeno acontece independente destes. Basicamente o que define a sincronicidade são a coincidência e o significado.

Jung observou também que tais coincidências ocorrem principalmente quando um arquétipo está constelado. O arquétipos são fatores psicóides que possuem uma transgressividade pois “não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psíquica, mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um processo físico externo com um processo psíquico).” (CW VIII, par. 954)

Jung propõe que o princípio de sincronicidade seja acrescentado à tríade espaço, tempo e causalidade, dizendo que “o espaço, o tempo e a causalidade, a tríade da Física clássica, seriam complementados pelo fator sincronicidade, convertendo-se em uma tétrada, um quatérnio que nos torna possível um julgamento da totalidade”(CW VIII, par. 951). Um gráfico então ficaria assim:

Espaço

Causalidade --------------------------- Sincronicidade

Tempo

Porém através de sugestões de Pauli, Jung e ele modificam o gráfico substituindo o esquema clássico da física pelo moderno, ficando assim:
Energia Indestrutível

Conexão constante de Conexão inconstante
fenômenos através do ------------------------------------------------------- através de contingência
efeito (causalidade) com identidade de significado (sincronicidade)

Continuum Espaço-Tempo

Através desse modelo, a microfísica e a psicologia profunda se aproximam, chegando na concepção dos arquétipos como constantes psicofísicos da natureza e fatores estruturantes criativos.

Jung referiu-se à sua definição de sincronicidade como sincronicidade em sentido estrito e a diferenciou de uma visão mais abrangente de sincronicidade que chamou de ordenação acausal. Os fenômenos sincronísticos em sentido estrito são “atos de criação” no tempo, e incluem a telepatia, fenômenos ESP e PK. Já a organização acausal geral inclui todos estes “atos de criação” e todos os fatores a priori como as propriedades dos números inteiros e as descontinuidades da física moderna.

É com base neste princípio de organização acausal geral que Jung tece suas considerações sobre o número. Ele diz que o cálculo é o método mais apropriado para se tratar do acaso, pois o número é misterioso, nunca foi despojado de sua aura numinosa. “Se, como diz qualquer manual de Matemática, um grupo de objetos for privado de todas as suas características, no final ainda restará o seu número, o que parece indicar que o número possui um caráter irredutível.” Pelo fato de o número ser o elemento ordenador mais primitivo do espírito humano, ele “é o instrumento indicado para criar a ordem ou para apreender uma certa regularidade já presente, mas ainda desconhecida, isto é, um certo ordenamento entre as coisas.” Por isso Jung chegou a chamar o número de “o arquétipo da ordem que se tornou consciente” e cita a estrutura matemática das mandalas, produtos espontâneos do inconsciente para chegar à conclusão de que “o inconsciente emprega o número como fator ordenador”. (CW VIII, par.870)

Os precursores históricos

Jung dedica uma parte do “Sincronicidade: um princípio de conexões acausais” para falar dos precursores históricos da sincronicidade. Ele afirma que a concepção chinesa da realidade, e particularmente o conceito de Tao, é, em grande parte, sincronística. Ele diz: “...segundo a concepção chinesa, há uma “racionalidade” latente em todas as coisas. Esta é a idéia fundamental que se acha na base da coincidência significativa: esta é possível porque os dois lados possuem o mesmo sentido.” (CW VIII, par. 912)

Aqui no ocidente esse princípio existiu por muito tempo. Jung diz que “a concepção primitiva, assim como a concepção clássica e medieval da natureza, postulam a existência de semelhante princípio ao lado da causalidade.” (CW VIII, par. 929) A idéia de uma unidade de toda a natureza (unus mundus) permeia essas concepções, e portanto nelas não existe uma diferença entre o micro e o macrossomo - há uma correspondência entre todas as coisas; também permeando essas concepções está a idéia de que existe na natureza uma fonte de todo conhecimento que se situa fora da alma humana, um conhecimento absoluto. Porém antigamente não se pensava em sincronicidade porque não se pensava em acaso. Tudo era atribuído a uma causalidade mágica que hoje nos parece ingênua. Com o advento do pensamento científico, essas concepções desaparecem. Jung aponta o que fez com que desaparecessem dizendo que “com a ascensão das ciências físicas, no século XIX, a teoria da correspondentia desaparece por completo da superfície e o mundo mágico dos tempos antigos parece sepultado para sempre.” (CW VIII, par. 929) Mas essa idéia de uma sincronicidade e de um significado subsistente à natureza, que é a base do pensamento chinês clássico e faz parte da concepção ingênua da idade média, embora pareça a alguns uma regressão, teve que ser retomada pela psicologia moderna uma vez que só o princípio da causalidade não explica toda a realidade dos acontecimentos.

Jung aponta como precursores da idéia de sincronicidade a “simpatia de todas as coisas” de Hipócrates; a idéia de que o sensível e o supra-sensível estão unidos por um vínculo de comunhão de Teofrasto; a idéia de uma necessidade e amizade que une o universo de Filo de Alexandria; a idéia de mônada, que também tem um significado de unidade de todas as coisas, do alquimista Zózimo; a alma universal de Plotino; a idéia do mundo como um único ser de Pico Della Mirandola; o “conhecimento” ou “idéia” inata dos organismos vivos de Agrippa von Nettesheim e a idéia da anima telluris de Johann Kepler. Jung cita também Schopenhauer e a idéia da vontade ou prima causa e da simultaneidade significativa (daí o termo “sincronicidade” usado por Jung). Mas o autor que Jung mais cita é Gottfried Wilhelm Leibniz. Leibniz explica a realidade através de quatro princípios:

espaço, tempo, causalidade e correspondência (harmonia praestabilita). Este último é um princípio acausal de sincronismo dos acontecimentos psíquicos e físicos. Jung discorda de Leibniz em apenas um ponto: para Leibniz este é um fator constante, enquanto que para Jung os eventos sincronísticos ocorrem esporadica e irregularmente.

AS ARMADILHAS DO CONCEITO DE SINCRONICIDADE

Para o pensamento ocidental desde Descartes, a “explicação científica” remonta a uma validação causal: D é causado por C, C por B, B por A. Não é de espantar então que a discussão da hipótese de Jung de um princípio de sincronicidade tenha produzido inúmeros mal-entendidos.

Marie-Louise von Franz em seu artigo “A Contribution to the Discussion of C.G. Jung’s Synchronicity Hipothesis” aponta uma série de erros que já se cometeu ou que se pode cometer na interpretação desse conceito e que aqui serão resumidos e sistematizados.

A autora começa falando das dificuldades que muitos parapsicólogos têm em compreender esse novo modo de pensar e diz que:

Na minha opinião isso vem do fato de muitos parapsicólogos estarem sempre fazendo um esforço intenso por conseguir a aceitação de seu campo fundamentando-o em um método científico “rigoroso”, isto é, em métodos quantitativos e pensamento causal enquanto que justamente o que a hipótese de Jung propõe está em uma direção oposta para longe daquilo que até agora foi considerado o único modo “científico” de pensar. (p. 229)

Ela então continua falando de algumas pessoas que tendem a achar que a sincronicidade explica os fenômenos “psi” causalmente e afirma:

a hipótese da sincronicidade não “explica” causalmente os fenômenos psi, mas comparada com os resultados obtidos até hoje pelas pesquisas, ela os coloca em um contexto novo, mais amplo, isto é, no domínio dos arquétipos, um campo no qual estudos biológicos e psicológicos detalhados já foram feitos. Entretanto estes estudos infelizmente parecem ser desconhecidos da maioria dos parapsicólogos. (p. 230)

Outra tendência errônea é encontrada entre aqueles que buscam uma explicação neurológica para os fenômenos sincronísticos, quando na verdade o que caracteriza um evento sincronístico é justamente a ausência de uma relação causal. Há também aqueles que supõem que os eventos sincronísticos sejam causados pelo inconsciente do observador. Com relação a isto, ela diz:

De acordo com a visão junguiana, o inconsciente coletivo não é de forma alguma uma expressão de desejos e objetivos pessoais, mas uma entidade neutra, psíquica em sua natureza que existe de uma forma absolutamente transpessoal. Atribuir a ocorrência de eventos sincronísticos ao inconsciente do observador não seria nada além de uma regressão ao pensamento mágico primitivo, de acordo com o qual supunha-se antigamente que, por exemplo, um eclipse poderia ser “causado” pela malevolência de um feiticeiro. Jung chegou a advertir explicitamente contra considerar-se os arquétipos (ou o inconsciente coletivo) ou poderes psi como sendo a agência causal dos eventos sincronísticos. (p.231)

O fato do evento sincronístico não ter uma causa pode levar ao erro de se imaginar que tudo aquilo que não tem uma causa conhecida é um evento sincronístico. Quanto a isso Jung é bem claro, afirmando que: “Devemos obviamente nos prevenir de pensar todo evento cuja causa é desconhecida como “sem causa”. Isso é admissível apenas quando uma causa não é nem sequer imaginável. Este é especialmente o caso quando espaço e tempo perdem seu significado ou aparecem relativizados, caso em que uma conexão causal também torna-se impensável.” (CW VIII, par. 957)

A questão do significado, que é crucial na classificação de um evento sincronístico, também pode causar confusões. Afirmar que a existência de um observador que dê significado ao evento é fundamental não quer dizer que os eventos sincronísticos e seu significado sejam produzidos pelo observador. Essa questão do significado também traz outros problemas. Pelo fato do significado ser subjetivo, como podemos saber se não estamos fantasiando um significado quando na realidade ele não existe? Tudo o que diz respeito a fenômenos arquetípicos tem uma “lógica” de asserção que Jung chama de “necessary statements” (“afirmações necessárias”). Estas não são criadas pelo ego, são “impostas” pelo arquétipo e são esperadas sempre que um arquétipo está constelado, como é o caso dos eventos sincronísticos, nos dando um parâmetro para saber se o evento é mesmo significativo ou não.

A ordenação acausal e o “conhecimento absoluto” que estão por trás dos eventos sincronísticos não devem ser confundidos com um “Deus” teológico. É possível postular um deus faber por trás destes eventos, mas isso vai além de qualquer possibilidade de prova e Jung nunca o fez.

Já que a constelação de um arquétipo é fundamental para a ocorrência de um evento sincronístico, é fácil incorrer no erro de considerar que foi o arquétipo que o ‘causou’. Jung diz que:

Eu me inclino, porém a admitir que a sincronicidade em sentido mais estrito é apenas um caso especial de organização geral, aquele da equivalência dos processos psíquicos e físicos onde o observador está em condição privilegiada de poder reconhecer o tertium comparationis. Mas logo que percebe o pano de fundo arquetípico, ele é tentado a atribuir a assimilação dos processos psíquicos e físicos independentes a um efeito (causal) do arquétipo, e assim, a ignorar o fato de que eles são meramente contingentes. Evitamos este perigo se considerarmos a sincronicidade como um caso especial de organização acausal geral. (...) ... devemos considerá-los [os acontecimentos acausais] como atos de criação no sentido de uma creatio continua (criação contínua) de um modelo que se repete esporadicamente desde toda a eternidade e não pode ser deduzido a partir de antecedentes conhecidos. (CW VIII, par. 516)

A organização arquetípica “aparece” ou torna-se “visível” em um evento sincronístico, mas não é a causa deste. O evento sincronístico é uma creatio, um surgimento espontâneo de algo inteiramente novo e que portanto não é predeterminado causalmente.

Embora Jung tenha sugerido que a ordenação acausal geral pode ser verificada experimentalmente através dos métodos de adivinhação, os eventos sincronísticos não são passíveis de serem investigados estatisticamente, uma vez que Jung é claro ao afirmar que os eventos sincronísticos são imprevisíveis, espontâneos e não podem ser repetidos.

Jung e sincronicidade: A construção do conceito

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Letícia Capriotti

Extraído da monografia "A construção do conceito de sincronicidade na obra de Jung" (PUC/PR - 1998).


Um estudo do conceito de sincronicidade à luz da sua construção histórica se faz necessário por duas razões. A primeira delas é que, pelo fato de o conceito lidar com premissas que vão além de nossa visão convencional da realidade (como a acausalidade), é muito fácil que ele seja mal-interpretado e desta forma distorcido.

A outra razão para se fazer um estudo histórico da obra de Jung (de toda a obra, não só do conceito de sincronicidade aqui abordado) é que hoje, passados mais de trinta anos da sua morte, ainda existem muitos aspectos ocultos e mal-entendidos que só prejudicam um entendimento correto da vida e da obra de Jung e que dão margem a idealizações e a interpretações denegridas. Andrew Samuels chama isso de uma falta de "enlutamento" e afirma que "por não termos feito o luto de Jung adequadamente, por não termos uma história estabelecida, tem sido muito difícil para nós consolidar nossos contatos e relacionamentos com o mundo acadêmico" (SAMUELS, 1995: 160). Um resgate histórico dos conceitos da obra de Jung vem no sentido de uma busca de esclarecimento.

O trabalho principal de Jung sobre o assunto é "Sincronicidade: um princípio de conexões acausais" publicado em 1952 junto com um artigo do físico Wolfgang Pauli, hoje o volume VIII das Obras Completas (infelizmente sem o artigo de Pauli). O fato desse trabalho mais detalhado ter sido publicado somente em 1952 pode nos levar a pensar que Jung só começou a se interessar pelo tema a partir da segunda metade deste século. Mas, como podemos perceber pelo que ele dizia nos seminários, escrevia em sua correspondência pessoal e no que depois viriam a ser os volumes das Obras Completas, a sincronicidade foi um assunto com o qual Jung começou a se preocupar no final dos anos 20, do qual ele se ocupou durante muitos anos até que se sentisse autorizado a escrever sobre ele e pelo qual ele se interessou até o fim da vida.

O termo ‘sincronicidade’ aparece pela primeira vez em 4 de dezembro de 1928 no seminário "Dream Analysis":

Eles aceitaram o simbolismo como se tivessem estado aqui conosco. Já que eu vi muitos outros exemplos do mesmo tipo nos quais pessoas não relacionadas foram afetadas, inventei a palavra sincronicidade como um termo para cobrir estes fenômenos, isto é, coisas acontecendo ao mesmo tempo como uma expressão do mesmo conteúdo. O fato de que os princípios da nossa psicologia são princípios de fenômenos energéticos gerais não é difícil para o chinês aceitar; só é difícil para a nossa mente discriminativa. Mas ela também tem o seu valor com o seu refinado sentido para os detalhes das coisas e aqui é exatamente onde o oriente definitivamente mostra a sua incapacidade, pois eles não conseguem lidar com os fatos e eles se permitem todos os tipos de idéias e superstições fantásticas. Por outro lado eles têm uma compreensão muito mais completa do papel do homem no cosmo, ou do como o cosmo está ligado ao homem. Devemos descobrir isto e muitas coisas altamente interessantes e maravilhosas que são do conhecimento deles." (p. 417)

Porém antes, no mesmo seminário Dream Analysis, Jung já vinha falando disso, sem citar o termo "sincronicidade", como em novembro de 1928:

Isto é o que chamamos de uma simples coincidência. Menciono isto para mostrar o quanto o sonho é algo vivo, de forma alguma algo morto que farfalha como um papel seco. É uma situação viva, é como um animal com antenas, ou com muitos cordões umbilicais. Nós não percebemos que enquanto estamos falando deles, isto é produtivo. É por isso que os primitivos falam de seus sonhos, por isso eu falo dos sonhos. Somos tocados pelos sonhos, eles nos expressam e nós expressamos a eles, e existem coincidências ligadas a eles. Recusamo-nos a levar as coincidências a sério porque não podemos considerá-las como causais. É verdade que cometeríamos um erro em considerá-las causais; fatos não acontecem por causa dos sonhos, isto seria absurdo, nunca poderemos demonstrar isto; eles apenas acontecem. Mas é sábio considerar o fato de que eles realmente acontecem. Nós não os notaríamos se eles não tivessem uma regularidade peculiar, não aquela de experimentos de laboratório, e sim um tipo de regularidade irracional. O oriente baseia muito da sua ciência nesta regularidade e considera as coincidências como a base confiável do mundo, não a causalidade. O sincronismo é o preconceito do oriente, a causalidade é o preconceito moderno do ocidente. Quanto mais nos ocuparmos dos sonhos, mais poderemos ver estes acasos-coincidências. Lembrem-se de que o mais velho livro científico chinês é sobre o possível acaso da vida. (págs 44-45)

Em uma nota de rodapé à palestra de 27 de novembro de 1928, lemos que: "Algumas das idéias que Jung estava experimentando na sua palestra reapareceram em seu discurso em memória de Richard Wilhelm (1930), vol.15, parágrafos 81-82, onde ele publicou pela primeira vez uma referência à "sincronicidade"" (p. 412)

Como se pode notar, o conceito aqui ainda está muito ligado ao princípio científico chinês e à questão da acausalidade devido à influência de Richard Wilhelm, como veremos depois.

As referências ao tema continuam e, em uma carta de 1934 ao físico Pascual Jordan, Jung cita pela primeira vez o seu interesse pela física, a aproximação desta com a psicologia e a influência de Wolfgang Pauli dizendo que "apesar de eu não ser um matemático, me interesso pelos avanços da física moderna, que está cada vez mais se aproximando da natureza da psique, como tenho visto há muito tempo. Muitas vezes falei sobre isso com Pauli". Como veremos mais adiante, a contribuição de Pauli foi fundamental para Jung no sentido de lhe dar uma fundamentação científica para o conceito de sincronicidade. A partir da década de 40, as referências de Jung se afastam cada vez mais do oriente para se aproximar da física moderna.

A última referência escrita de Jung à sincronicidade é feita em uma carta endereçada a Stephen Abrams onde ele fala sobre os fenômenos ESP. Esta carta é de 1960, portanto pouco antes de Jung falecer:

A teoria matemática da informação está além do alcance do meu entendimento, no entanto parece-me interessante. É bem possível, até mesmo provável, que o homem tenha uma quantidade muito maior de ESP a sua disposição do que a que ele realmente supõe. Isso deve ser verdade se a sincronicidade pertence às qualidades básicas da existência.

Jung escreveu um grande trabalho sobre o tema que consta em "Sincronicidade" (vol. VIII CW) porém encontramos várias outras referências ao assunto no prefácio de "O Segredo da Flor de Ouro"; nas "Tavistock Lectures" (vol XVIII CW); no prefácio ao "I Ching" e em "Um Mito Moderno Sobre Coisas Vistas no Céu" (vol. X/4 CW). Esse princípio também foi citado nos seminários "Dream Analysis", "Visions Seminar" e "Nietzsche’s Zarathustra", que não se encontram ainda traduzidos para o português. Igualmente ainda sem tradução está a importante fonte de dados que foi a correspondência completa de Jung. Uma descrição de todas as referências em ordem cronológica é fonte rica para uma análise, porém escapa ao âmbito deste trabalho.

Jung sugere como ponto de partida de suas reflexões sobre o conceito de sincronicidade suas conversas com Albert Einstein, quando este estava em Zurique no período de 1909/1910 e 1912/1913. Em uma carta endereçada ao jornalista e crítico teatral suíço Carl Seeling em 25/02/1953 escreve Jung:

O professor Einstein foi meu convidado em várias ocasiões para jantar... aquele era um período inicial onde Einstein estava desenvolvendo sua primeira teoria da relatividade, [e] foi ele quem me fez começar a pensar sobre uma possível relatividade do tempo assim como do espaço e sua condicionalidade psíquica. Mais de trinta anos depois este estímulo levou-me ao relacionamento com o físico Prof. W. Pauli e à minha tese da sincronicidade da psique. (LETTERS - p. 109, v.2).

A lembrança de suas conversas com Einstein, mesmo que "como não-matemáticos nós, psiquiatras, tivéssemos dificuldade em seguir o seu argumento" (ibid), mais do que ao conceito de sincronicidade levaram Jung a buscar uma base ou fundamentação teórica dentro da física moderna a este princípio, embora as primeiras idéias a respeito do conceito advenham do estudo feito por Jung da filosofia oriental, principalmente do I Ching.

Talvez possamos estabelecer dentro da construção da teoria da sincronicidade duas etapas complementares sendo que a primeira corresponderia a uma fase oriental e a segunda fase estaria ligada à fundamentação física e a uma ampliação do conceito em que este passa a fazer parte de uma idéia mais abrangente, a das "ordenações não causais". Da mesma forma que podemos propor duas fases também podemos propor a influência de dois autores sobre Jung e a cada um deles corresponderia uma diferente fase; na primeira fase, que vai até a metade dos anos 40, o papel de Richard Wilhelm é marcante e na segunda fase, que vai até o final dos anos 50, a relação de Jung com Wolfgang Pauli é fundamental.

A INFLUÊNCIA DE RICHARD WILHELM

Jung conheceu o sinólogo Richard Wilhelm (tradutor da melhor versão para o ocidente do I Ching) no final dos anos vinte e os dois tornaram-se amigos e colaboradores até a morte prematura de Wilhelm em 1931. Mesmo antes de conhecer Wilhelm, Jung já se interessava pela cultura oriental através de sugestões de Antônia Wolff e já fazia uso do antigo texto chinês de sabedoria e oráculo, o I Ching na tradução de James Legge.

Desde o início de seu trabalho com sonhos, Jung observou que os motivos oníricos tendem a coincidir relativamente com situações reais, com um significado semelhante ou mesmo com situações reais idênticas. Ele só se expressou oficialmente a respeito deste tema no final dos anos 20 falando a respeito do princípio científico chinês, que é baseado numa idéia totalmente diferente de nossa hipótese da causalidade e que é particularmente importante em conexão com o I Ching.

Jung já há muito vinha observando fenômenos reais que não se enquadravam na visão ocidental causalista. A filosofia oriental, com seu pensamento não-linear, comprovou-lhe que o acaso e a coincidência podem ser levados em consideração e que a causalidade é meramente uma hipótese, não uma verdade absoluta. Na China antiga, a filosofia, a medicina, a arquitetura e outras ciências humanas eram baseadas na ciência da coincidência.

Além de um contato mais aprofundado com a filosofia oriental, a relação com Wilhelm trouxe um texto fundamental para Jung - o tratado Taoísta chinês "Segredo da Flor de Ouro", para o qual Wilhelm pediu-lhe que fizesse o prefácio. Segundo Gerhard Wehr, "(...) o texto Taoísta parece ter tido um efeito que afetou Jung como uma iniciação. Somente depois dessa experiência é que ele foi capaz de se dedicar intensivamente à tradição alquímica"(WEHR, 1989: p. 75). Antes dele Jung já havia se interessado pela alquimia "mas foi de Wilhelm que Jung recebeu o ímpeto de iluminar os paralelos entre a alquimia e a psicologia profunda."(ibid, p. 76)

Mesmo antes do final dos anos vinte, Jung vinha procurando entender as imagens da mitologia, as imagens de seus pacientes e as de seu próprio confronto com o inconsciente. Foi através da alquimia que Jung pôde entender todas estas imagens porque a alquimia se expressa em uma linguagem simbólica, que é uma das linguagens da psique (a outra é conceitual). A alquimia vem dar uma forma ao processo de individuação e assim os conceitos principais de Jung como o de inconsciente coletivo e arquétipo ficam mais claros depois de 1928. Dentre os conceitos alquímicos que influenciaram a concepção de sincronicidade, destacam-se o de unus mundus e o de macro e microssomo.

Junto com a alquimia vem o encontro com Pauli e conceitos como o de psicóide e o de sincronicidade tomam forma e se abre uma nova forma de compreensão da relação entre psique e matéria.

A INFLUÊNCIA DE W. PAULI

A relação de Jung com o físico alemão Wolfgang Pauli começa com um pedido de análise por parte de Pauli em 1930, em função de um colapso pessoal. Em 1928 sua mãe, então com 48 anos de idade, havia se suicidado e em 1929 Pauli casou com Käthe Deppner, mas a união não deu certo.

Após esse casamento fracassado e o suicídio de sua mãe, com quem tinha um forte vínculo afetivo, a condição emocional de Pauli, que já não era estável, se deteriora a ponto de ele beber em excesso e sofrer de isolamento, como resultado também da sua língua mordaz e ferina. Por sugestão de seu pai, Pauli vai procurar ajuda com Jung. Ao invés de assumir ele mesmo o caso, Jung encaminha Pauli para Erna Rosenbaum, uma jovem analista. Um dos motivos para esse encaminhamento foi a dificuldade de Pauli na sua relação com as mulheres e com a sua função sentimento. Um outro motivo alegado por Jung foi a sua percepção de que Pauli era uma personalidade excepcional e que requeria um tratamento especial. Jung encaminhou-o de propósito a uma principiante: não queria que o material que ele trazia fosse influenciado por nenhum conhecimento aprofundado anterior. Em "Psicologia e Alquimia" Jung escreve:

Vale a pena observar pacientemente o que se processa em silêncio na alma. A maioria das transformações e as melhores ocorrem quando não se é regido pelas leis vindas de cima e do exterior. Admito de bom grado que é tal meu respeito pelo que acontece na alma humana, que receio perturbar e distorcer a silenciosa atuação da natureza, mediante intervenções desajeitadas. Por isso renunciei a observar pessoalmente o caso que nos ocupa, confiando a tarefa a uma principiante, livre do peso do meu saber - tudo isto para não perturbar o processo.

Os resultados que aqui apresento são simples auto-observações conscienciosas e exatas, de uma pessoa de grande firmeza intelectual, que ninguém jamais sugestionou e que não seria passível de ser sugestionada. Os verdadeiros conhecedores do material psíquico reconhecerão facilmente a autenticidade e espontaneidade dos resultados aqui expostos. (parag.126)

Pauli, por sua vez, dedicou ao seu inconsciente a mesma paixão brilhante que dedicava à física. Ele registrou e espontaneamente ilustrou quase 400 sonhos em seus dez meses de análise. Esses sonhos que Jung analisou posteriormente, serviram de fundamento para um dos seus escritos mais importantes: "Individual Dream Symbolism in Relation to Alchemy", a segunda parte de "Psicologia e Alquimia".

Jung e Pauli passam a se corresponder com mais freqüência. Pauli apoiou o princípio da sincronicidade como sendo científico. A contribuição mais famosa de Pauli à física - o Princípio de Exclusão pelo qual ele recebeu o Prêmio Nobel - implicava a descoberta de um padrão abstrato que se oculta debaixo da superfície da matéria e que determina seu comportamento de modo "acausal". Jung auxiliou Pauli na sua compreensão dos fatores coletivos e arquetípicos na psique.

Desenvolve-se assim uma longa colaboração e influência teórica mútua, culminando em 1952 com a publicação de "The Interpretation of Nature and the Psyche" com dois textos, um escrito por Pauli "The Influence of Archetypal Ideas on the Scientific Thoughts of Kepler" e outro por Jung "Sincronicidade: Um Princípio de Conexões Acausais" (vol.VIII). Em agosto de 1957, sem nenhuma razão aparente, a correspondência entre os dois se interrompe.

Para Pauli o encontro com Jung o levou a um conhecimento pessoal dos processos inconscientes e de seu papel vital na integração e equilíbrio da personalidade humana. Como cientista ele também foi despertado para o significado que as pesquisas de Jung têm para a ciência. Em particular, ele reconheceu as profundas implicações que o conceito de arquétipo tem para a ciência e as suas derivações epistemológicas. (Ver: "Ideas of the Unconscious from the Standpoint of Natural Sciences and Epistemology" - 1954; "Science and Western Thought" - 1955)
Para Jung o encontro com Pauli trouxe à tona certos aspectos da natureza da realidade que o levaram à posterior expansão do conceito de arquétipo e que deram ao conceito de sincronicidade e suas aplicações posteriores um melhor embasamento científico. Esta última formulação da hipótese dos arquétipos está fundada no paralelismo percebido por Jung/Pauli entre a psicologia do inconsciente e a teoria quântica, paralelismo este que foi aprofundado por Marie-Louise von Franz em livros como "Number and Time" e "Psyche and Matter". Jung foi tocado pelo fato de que a pesquisa psicológica à medida que se aprofunda chega ao limite de certos irrepresentáveis, os arquétipos, e a pesquisa na física quântica de maneira similar também chega aos irrepresentáveis, as chamadas partículas elementares que constituem toda a matéria mas para as quais nenhuma descrição espaço/temporal é possível. Desde que a psique e a matéria estão contidas em um e mesmo mundo, Jung usou o termo "unus mundus" para descrever esse aspecto transcendente e unitário que sustenta a dualidade da mente e da matéria.

O conceito de sincronicidade e a conceituação de uma ‘ordenação acausal geral’ têm amplas implicações na física moderna. Em seu artigo "The Archetypal Hypothesis of Wolfgang Pauli and C.G. Jung: Origins, Development, and Implications", o físico Charles R. Card afirma que: "Esta hipótese arquetípica [de Jung e Pauli] tem implicações que hoje mais do que nunca podem ser vistas como relevantes a algumas das maiores preocupações das bases da física moderna - em particular no tratamento de fenômenos não-locais na mecânica quântica e em fenômenos ‘caóticos’ na dinâmica não-linear."(p. 362) A noção de ordenação acausal lançou uma nova luz sobre fenômenos que antes não tinham explicação porque escapavam à causalidade como a lei da meia-vida na decomposição radioativa; a imprevisibilidade do comportamento de um átomo individual na mecânica quântica; o "brilho fóssil" no background cósmico; o pêndulo de Foucault e o paradoxo Einstein-Podolski-Rosen (EPR), além de também lançar luz sobre a controvertida relação entre psique e matéria.
http://www.symbolon.com.br/artigos/jungesicroni1.htm 

Sonhos de Jung

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O psiquiatra suíço Carl Jung parece ter ido mais além no terreno das experiências raras. Ele escreveu sobre fatos estranhos que teriam ocorrido em sua casa como móveis que se partiam sozinhos sem motivo aparente. O criador da psicologia analítica escreveu também sobre sua capacidade de, às vezes, saber de fatos sobre alguém sem que ninguém os tivesse contado. Em 1944, vitimado por um enfarte, descreveu uma visão que alguns consideram uma experiência de projeção astral. Parecia-me estar muito alto no espaço cósmico. Muito abaixo de mim, vi o globo terrestre banhado de uma maravilhosa luz azul (...) O espetáculo de ver a Terra dessa altura foi a experiência mais feérica e maravilhosa da minha vida.