Os cientistas que tentam entender os sonhos premonitórios

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Todos os dias, pobres trabalhadores do mundo se vêem presos em conversas sobre os sonhos "super realistas" ou "totalmente premonitórios" de seus colegas de trabalho. Embora ouvir os sonhos dos outros seja entediante, grande parte de nós se interessa pela ideia de que os conteúdos oníricos podem predizer o futuro.

O conceito de sonho precognitivo — fatos inéditos que se tornam realidade — vai contra nossa noção mais básica de tempo e relatividade. Se o tempo é linear e, vamos lá, se aprendemos e sentimos por meio da experiência, os sonhos premonitórios são impossíveis.

Mas será mesmo que é realmente impossível sonhar com o futuro?

Para descobrir a resposta, entrei em contato com Dr. Stanley Krippner, professor de psicologia da Universidade Saybrook, nos Estados Unidos. Ele estuda há 40 anos os campos da parapsicologia, dos sonhos precognitivos e do xamanismo. Entre seus temas de pesquisa se inclui a banda Grateful Dead. Ele acredita que, sim, humanos são capazes de ter sonhos premonitórios. Sua pesquisa, afirma, dá base para tal afirmação.

Durante nossa entrevista, Krippner citou um dos seus mais importantes estudos sobre sonhos precognitivos. Nele, um voluntário se sujeitava a uma noite comum de sono, mas com uma pequena diferença: seu objetivo era sonhar com algo que aconteceria na manhã seguinte. O voluntário era então acordado quatro ou cinco vezes ao longo da noite para descrever seus sonhos para um dos pesquisadores.

No dia a seguir, os pesquisadores escolhiam aleatoriamente uma atividade em meio a uma série de opções pré-planejadas. Em seguida, o voluntário era submetido à ela. Krippner diz que não havia nenhuma possibilidade dos participantes saberem qual seria a atividade antes que ela fosse escolhida e administrada.
Krippner cita o exemplo de um participante que sonhou, certa noite, com pássaros: pássaros no ar, pássaros numa lagoa, pássaros voando, pássaros de todos os jeitos. Na manhã seguinte, o participante foi submetido a uma das atividades escolhidas aleatoriamente. “A atividade consistia em ouvir alguns sons com um fone de ouvido", disse o professor. “E qual era o som? Cantos de pássaros. A segunda parte da atividade era assistir a um vídeo. E o que havia nesse vídeo? Fotos de pássaros."

Ao final das oito noites, um júri imparcial comparou os sonhos dos voluntários com as atividades que foram submetidos. A ideia era determinar se os sonhos correspondiam ou não à atividade prescrita na manhã seguinte. Krippner afirma que, para cada participante, o júri encontrou pelo menos uma correspondência entre sonho e atividade subsequente em quase todas as noites do teste.

"Se estivéssemos falando sobre qualquer outro fenômeno, todos concordariam que essa correlação tem fundamento", disse Dr. Patrick McNamara, professor associado do departamento de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston e professor de psicologia da Universidade Northcentral. “Mas posto que não existe nenhuma explicação física por trás dos resultados desses estudos, os cientistas ainda dizem 'bem, nós não temos uma explicação para isso, portanto não confiamos nos resultados desses testes'".

O ceticismo é tão forte no campo dos sonhos precognitivos que Krippner chamou ilusionistas para inspecionar seu laboratório e método de estudo, a fim de checar se havia alguma possibilidade de fraude ou manipulação da pesquisa.

Se aceitássemos — hipoteticamente, é claro — que os sonhos precognitivos de fato existem, qual seria a explicação por trás deles? A resposta mais simples é: ninguém sabe.

“Eventos quânticos acontecem em uma escala de tempo diferente da qual a maior parte da população do Ocidente conhece"

O que sabemos é que nosso inconsciente é capaz de alcançar grandes revelações durante o sono REM. No começo do século passado, Sigmund Freud afirmou que damos mais valor ao que acontece em nossos sonhos porque nossos pensamentos inconscientes são aparentemente imunes à influência externa. Desde então, os estudos do sono comprovaram essa ideia e revelam que, durante o sono REM, o cérebro se liberta das amarras da consciência, entrando num fluxo desordenado de pensamentos e sensações. Durante o sono REM, a mente pode fabricar ideias geniais, oferecendo a clareza necessária para solucionar dilemas do dia-a-dia e resultando em descobertas incríveis, incluindo (supostamente) as revelações de Einstein acerca da teoria da relatividade.

Isso nos leva a uma das teorias sobre os sonhos precognitivos. Talvez nosso cérebro, durante a desordem total do estado REM, possa identificar e processar diferentes tipos de "sinais" que não reconhecemos conscientemente, e esses sinais possam nos ajudar a compreender o futuro. Quanto à origem desses sinais, a resposta pode estar no emaranhamento quântico, a ideia de que duas partículas ou tempos distintos podem interagir entre si mesmo estando fisicamente distantes.

Krippner explicou como a física quântica poderia justificar os sonhos precognitivos. “Os eventos quânticos acontecem em uma escala de tempo diferente da qual a maior parte da população do Ocidente conhece", explicou. “Nossa ideia de tempo se divide em passado, presente e futuro. Mas a física quântica traz um conceito diferente de tempo." 

O psicólogo afirma que esse mesmo conceito pode ser encontrado em várias das culturas indígenas estudadas por ele durante sua pesquisa sobre sonhos precognitivos e xamanismo.

“Muitos povos indígenas vêem o tempo como um círculo; ele vai e volta, como numa espiral", disse. “Também temos alguns povos indígenas norte-americanos que acreditam na existência de um ‘corpo extenso’; em outras palavras, um corpo que vai além da pele. O corpo extenso de alguém se projeta e envolve outras pessoas e outras partes da natureza — tudo acontece ao mesmo tempo. Para eles, sonhar com o futuro não é nada surpreendente."

Aparentemente, a ideia do tempo não-linear torna os membros de sociedades indígenas mais receptivos a sonhos precognitivos, e Krippner descobriu que sonhar com o futuro é mais comum e mais valorizado entre os índios do que em culturas eurocêntricas.

McNamara deu outros exemplos que, segundo ele, indicam que há algo de místico em nossos sonhos.

“Vejamos o exemplo de sonhos entre gêmeos", propôs. “Temos casos registrados nos quais um gêmeo sonha que algo acontecerá com o outro, e a coisa em questão acaba acontecendo. Também temos casos registrados de gêmeos que têm sonhos muito parecidos e que sentem que o outro sonhou algo muito parecido e que conseguem concluir o sonho do outro."

“O fato desses sonhos acontecerem entre parentes ou entre pessoas com fortes laços emocionais reforça a teoria de que há um processo biológico ou cognitivo, atualmente desconhecido pela ciência, envolvido nesses casos", acrescentou.

No entanto, também existem teorias muito convincentes que refutam a ideia dos sonhos precognitivos. De acordo com Dr. Robert Todd Carroll, um escritor e acadêmico que estuda a psicologia da fé, a influência subconsciente é responsável pelo que chamamos de sonhos premonitórios.

Vejamos, por exemplo, um dos casos de sonho precognitivo mais famosos da história. Em 1865, o então presidente americano Abraham Lincoln teve um sonho no qual andava pela Casa Branca em meio a gritos e cantos fúnebres. Ele seguia rumo à Sala Oeste, onde via um caixão protegido por soldados e era informado que o presidente havia sido assassinado. Nos dias seguintes, Lincoln contou seu sonho para sua mulher e alguns amigos íntimos; 13 dias depois do sonho, ele foi morto.

"Talvez esses estudos sobre sonhos precognitivos estejam à frente do nosso tempo"

No caso de Lincoln, podemos inferir, com muita clareza, a influência do subconsciente: em primeiro lugar, como o presidente em poder durante a Guerra Civil Americana, sua segurança pessoal era, muito provavelmente, uma preocupação necessária. Além disso, Lincoln havia sido vítima de uma tentativa de assassinato menos de um ano antes.

Carroll também acredita que a probabilidade e o acaso podem explicar os sonhos supostamente premonitórios. “A cada noite, bilhões de sonhos são sonhados, e seria muito estranho se nenhum deles correspondesse, de forma vaga ou precisa, a eventos passados, presentes ou futuros", escreve Carroll.
Sabedoria indígena e explicações psicológicas à parte, a caça a uma explicação científica para os sonhos precognitivos segue em frente. Apesar do nosso interesse pelos sonhos, o estudo deles nunca foi uma prioridade para a ciência moderna. Mas isso está mudando graças ao advento da neuroimagiologia, que permite que cientistas observem o cérebro humano durante um sonho, e também graças a testes padronizados do conteúdo de sonhos. No campo civil, aplicativos que registram sonhos, como oDream:ON, oferecem aos pesquisadores um banco de dados multicultural de sonhos.

Krippner, que já deu a volta ao mundo e conheceu povos indígenas da Ásia, África, América do Norte, América do Sul e Austrália, vê o futuro do estudo dos sonhos precognitivos com otimismo.

“No mundo existem anomalias que não podem ser explicadas por meio do ponto de vista ocidental", ele me disse. “Talvez esses estudos sobre sonhos precognitivos estejam à frente do nosso tempo e tenhamos que esperar 50 ou 100 anos para realmente entendê-los."

Como é de se esperar, ele acredita que as respostas do futuro estão no passado: "Acho que as futuras descobertas sobre sonhos cognitivos estarão de acordo com a ideia de tempo dos povos indígenas."
Escrito por Geraldine Cremin
 http://motherboard.vice.com/pt_br/read/os-cientistas-que-tentam-entender-os-sonhos-premonitorios


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